13 Julho 2009

...ninguém prometeu nada... fui eu que julguei que sabia arrancar sempre mais uma gargalhada...



Por outras palavras - Mafalda Veiga


Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
mais uma madrugada

Ninguém disse que o riso nos pertence
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que podia arrancar sempre
mais uma gargalhada

E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
e morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim

Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julguei que sabia arrancar sempre
mais uma gargalhada

E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
e morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim




...este tema tem um bocado que ver com uma conversa de ontem à noite... senti-me um pouco melhor, ao notar que o tempo foi suavizando as mágoas... obrigado, M. e desculpa...

12 Julho 2009

...que na minha herdade vazia aquele amor perdido é uma rosa branca que se abre em silêncio...





Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto
que sem olhares verás na minha casa vazia:
tudo isto que sobe pelo muros direitos
- como o meu coração - sempre buscando altura.

Sorris-te - amigo. Que importa! Ninguém sabe
entregar nas mãos o que se esconde dentro,
mas eu dou-te a alma, ânfora de suaves néctares,
e toda eu ta dou... Menos aquela lembrança...

... Que na minha herdade vazia aquele amor perdido
é uma rosa branca que se abre em silêncio...

Pablo Neruda
in "Crepusculário"





...já que Neruda faria 104 anos, deu-me para recordar aqui no meu cantinho um dos seus poemas... que se adecua a este vídeo que a M. me enviou - de facto, os animais possuem sentimentos e são bem mais afectuosos que os humanos, que teimam em ser estupidamente racionalistas e pensam que demonstrar os sentimentos é sinal de fraqueza...

...eu trago-te comigo e guardo este abraço só pra ti...


Gente Perdida - Mafalda Veiga




eu fui devagarinho, com medo de falhar
não fosse esse o caminho certo para te encontrar
fui descobrindo devagar cada sorriso teu
fui aprendendo a procurar por entre sonhos meus

eu fui assim chegando, sem entender porque
ja foram tantas vezes, tantas assim como esta vez
mas é mais fundo o teu olhar, mais do que eu sei dizer
é um abrigo para voltar,
ou um mar pra me perder


Lá fora, o vento, nem sempre sabe a liberdade
a gente finge mas sabe o que não é verdade
foge ao vazio, enquanto brinda, dança e salta
eu trago-te comigo e sinto tanto tanto a tua falta

eu fui entrando pouco a pouco, abri a porta e vi
que havia lume aceso e um lugar pra mim
quase me assusta descobrir que foi este sabor
que a vida inteira procurei entre a paixão e a dor

Lá fora, o vento, nem sempre sabe a liberdade
gente perdida balança entre o sonho e a verdade
foge ao vazio, enquanto brinda, dança e salta
eu trago-te comigo, e sinto tanto tanto a tua falta


lá fora, o vento, nem sempre sabe sabe a liberdade
gente perdida balança entre o sonho e a verdade
foge ao vazio, enquanto bebe, dança e ri
eu trago-te comigo
e guardo este abraço só pra ti




...porque há abraços que mudam o rumo da nossa vida...


11 Julho 2009

...Não se move uma montanha por um pálido pedido de alguém que não se ama...


Palavras e Silêncios - Zeca Baleiro

...pois que gosto imenso deste senhor... e hoje vim parte da viagem a ouvir um cd que desconhecia de uma banda sonora que ele fez para um bailado... muito, muito bom...

...yet there's still this appeal that we've kept through our lives...



Lyrics
Nouvelle Vague - Love will tear us apart lyrics


...no ano passado faltaram eles ao Alive... este ano faltei eu ao SBSR... da próxima será de vez...

...my Soul's a bag of stick and stone...




Dave Matthews Band And Dave Matthews - Loving wings lyrics

...e eu que ainda pensei em trocar os Depeche Mode por estes senhores, mas depois ao ponderar os gastos decidi pelo SBSR... de facto, mais valia ter ido ao Alive... enfim, para o ano será outro ano de farra em Algés - se não for há-de ser por um motivo válido...

...onde agora a mão se perde e era o espaço...


A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser Na língua,
proferir o seu desejo
O toque inteiro

Não existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo

Era com o sol E era
um corpo

Onde agora a mão se perde
E era o espaço

Onde não é

O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas,
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema

António Ramos Rosa
in "A Nuvem Sobre a Página"

...tudo é do outro lado, no que há e no que penso...


Contemplo o que não vejo


Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.

Fernando Pessoa

...too wrong...




...pois que está errado, pois está... é a 3a vez nos ultimos anos que tento ver estes senhores... a 1a não pude ir porque estava atolada de trabalho... as 2 ultimas cancelaram... e quem os vai substituir amanhã??X&P... opah, gosto muito dos meus meninos, mas... não!! vou ficar por casa mesmo, ver a famelga e descansar que bem preciso...

10 Julho 2009

...nostalgia...




...saudades do tempo em que o relógio parava, e a única coisa verdadeiramente importante era o programa de animação do Vasco Granja... e este velhote pitosguinha era fantástico, porque o mundo em que vivia era completamente surreal... infelizmente há tantos assim, mesmo sem miopia...

...will I complete the mystery...





I will wade out
Till my thighs are steeped
In burning flowers
I will take the sun in my mouth
And leap into the ripe air
Alive with closed eyes
To dash against darkness

In the sleeping curves of my body
Shall enter fingers
Of smooth mastery
With chasteness of sea-girls
Will I complete the mystery
Of my flesh
Will I complete the mystery
Of my flesh
My flesh

09 Julho 2009

...we're both of us beneath our love, we're both of us above...




...um dos vídeos do Leonard Cohen que passava na tv quando eu tinha 14 ou 15 anos... há uma eternidade, portanto...

...as saudades têm número de porta e nome de rua... e contra isso não podes fazer nada....




Acredito nos fins irreversíveis. Acredito na impossibilidade real do encontro, no poder afirmativo da ausência, no esbatimento das lembranças, hoje inteiras amanhã pela metade como frescos por restaurar, pedaços de asas de anjo em tectos abobadados, bocados de tinta e estuque que se soltam de nós com o passar oxidante do tempo. Acredito no dedo que se contrai antes do send, no delete antes do envio, no move to draft, nas palavras em suspenso no nada. Acredito no SMS não enviado, no telefonema que não chega a ser feito, no nome que fica na lista, perdido entre os contactos profissionais. Acredito no dito que nunca será dado pelo não dito, na vida que continua a esgalgar-se à nossa frente, nos homens e nas mulheres que nos apagam e apagarão de vez um do outro. Acredito nos teus e nos meus amores maiores, nas opções certas e na determinação da escolha. Acredito que se pode jogar e ganhar, mesmo quando se pensa que se perde, e também creio no inverso: que às vezes se perde mas se está convencido de que se ganhou. No entanto, não acredito numa única palavra do que me disseste para além daquilo que é a verdade. Vais sentir-me em ti durante algum tempo, a revolver-te os órgãos internos e a retirá-los aos bocadinhos com uma colher nalgumas das noites em que ficares acordado, a enfiar-te agulhas nas plantas dos pés quando estiveres em casa ao domingo porque está a chover, e a aparecer-te no espelho retrovisor quando olhares por cima do ombro a ver se podes ultrapassar. Exagero? Talvez. Afinal, podes já ter esquecido muito entretanto, atropelado pela realidade, mas aposto que ainda te lembras da minha tendência para o drama quando aqui chego. E as saudades (essas) são reais e não são só minhas. As saudades têm a forma de mesas de esplanada, reflectem-se num copo alto com gelo derretido dentro, num carro velho impregnado de vestígios do crime, num café esquecido que arrefeceu na chávena e no prato do dia partilhado numa tasca. As saudades têm número de porta e nome de rua. E contra isso não podes fazer nada.










...eu acredito que alguns finais são reversíveis... aliás, custa-me entender como é que duas pessoas que partilharam momentos únicos de uma vida, entre as quais havia uma enorme cumplicidade, parecendo que se conheciam desde sempre, de repente parece que se tornaram perfeitos estranhos... posso ser estupidamente ingénua (ou ingenuamente estúpida, talvez), mas acredito que quando há uma amizade verdadeira, podemos ficar separados imenso tempo mas quando nos reencontramos parece que não passou tempo nenhum e sentimos que estamos "em casa"... podemos separar-nos por causa de contratempos, mas conseguimos sempre resolver a situação e tornar a amizade ainda mais forte... e de facto, no último ano reencontrei alguns amigos que voltaram a fazer parte da minha vida como antes, ocupando o lugar que sempre foi seu...




...e quando não há hipótese de reverter o processo, e num dado momento nos separamos e se desfaz tudo o que de bom parecia ter sido construído???Aí, pode ter havido companheirismo, foram colegas, compinchas, nunca foram AMIGOS... porque os AMIGOS custam a encontrar, mas jamais se perdem... como alguém tem no msn hoje "Amigos são como o vento... às vezes perto, outras vezes longe, mas sempre no coração"...




...a ausência desincorpora...








A Ausência desincorpora - e assim faz a Morte
Escondendo os indivíduos da Terra
A Superstição ajuda, tal como o amor
A Ternura diminui à medida que a experimentamos

Emily Dickinson
in "Poemas e Cartas"


...as longas viagens dão-me sempre para pensar em coisas para as quais o tempo raramente chega, noutras circunstâncias; e hoje, não foi excepção! Deu-me para pensar nos "ausentes" - as pessoas de quem gostava e que de repente desapareceram. A primeira que me deixou foi a Lena, teria eu uns 6 anos. Lembro-me dela no dia anterior: com os seus 16 anos era de facto muito bonita (a mais bonita das irmãs), e tinha sempre um sorriso... lembro-me que passámos a tarde toda a brincar, na quinta dos meus avós. Talvez por isso ainda me venham as lágrimas aos olhos, quando penso nisso... talvez por isso me tenha custado tanto vê-la num caixão no dia seguinte, quando fui a casa dela entregar-lhe um gancho de que se tinha esquecido. Seguiram-se mais umas quantas perdas - a maioria pessoas idosas, minhas vizinhas ou dos meus avós. Essas perdas acabam por se aceitar com uma certa naturalidade, porque faz parte da "lei da vida". Outra perda que me custou bastante foi a de um casal de amigos -com 26 ou 27 anos, ele tinha conseguido um emprego estável como assistente na FM, com uma filhota bebé, ambos a terminar o doutoramento... a perda do meu avô, com quem tinha um relacionamento especial (e a quem devo parte do meu mau feitio), apesar de me ter custado imenso, acabou por ser o final do sofrimento em que ele se encontrava. Custou-me perdê-lo, mas já há muitos meses que ele vinha definhando num sofrimento crónico e a pessoa que estava naquela cama já nada tinha da pessoa que ele sempre fora...meses depois, inesperadamente perdi um tio meu... e 2 anos e meio depois a mc... estas últimas custaram bastante, porque foram inesperdas e foi um final antecipado de quem ainda tinha tantos planos de vida. Mas apesar de terem partido, continuam presentes no nosso pensamento e na nossa vida, de cada vez que nos recordamos deles... a ausência é "apenas" física, porque de cada vez que nos lembramos desses ausentes, recordamos aquilo que nos deixou marcas- a forma de falar, expressões típicas, comportamentos típicos...e especialmente as coisas boas.

Mais complicados são os "ausentes-vivos": aqueles que ocuparam um lugar importante na nossa vida, a quem entregamos uma parte de nós e que de repente desapareceram das nossas vidas, sem um motivo lógico, acabando por magoar muito... e estes acabam por deixar grandes mágoas, especialmente porque aquando da partida acabam por deitar por terra a amizade que tinha sido construída e que pensávamos ser intocável. E infelizmente são as pessoas de quem mais gostamos que acabam por nos dilacerar o coração - as pessoas em quem confiámos e que aproveitaram o que conheciam de nós para nos ferir de morte... eu tenho grandes dificuldades em lidar com as perdas, especialmente com a perda de alguém que está vivo - e estes magoam bem mais do que os ausentes físicos, até porque se torna muito difícil voltar a confiar de novo...

08 Julho 2009

...nascem e morrem tanta vez enquanto vivem...




Dois amantes felizes fazem um só pão,
uma só gota de lua sobre a erva,
deixam andando duas sombras que se juntam,
deixam um único sol vazio numa cama.
De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios, mas com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A alegria é uma torre transparente.
O ar, o vinho, vão com os dois amantes,
a noite dá-lhes as suas pétalas felizes,
têm direito aos cravos que apareçam.
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem.

...não sei se reparaste mas é a primeira vez que escrevo meu amor...




“havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer

e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas

e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar

mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios"

...dias estranhos...




...é o que tenho demais tido ultimamente... e tenho pena de não ir ao Alive este ano ver este senhor, mas Julho tem demasiada oferta para apenas 4 fins-de-semana...

...that's a battle outside and it's rangin'...





Lyrics | Bob Dylan Lyrics | The Times They Are A-changin%27 Lyrics


...não sei bem onde quando foi a mudança, porque nos últimos 5 anos muito pouco mudou...

...if so...who answers...who answers...





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...outra companhia da viagem... e realmente, acho que estou na fase zombie... em que não me apetece fazer nada, não tenho gosto por nada, apenas quero dormir e deixar as chatices longe...

...I need a break from my troubling ways...





Lyrics | Melody Gardot lyrics - Worrisome Heart lyrics


...uma boa companhia na viagem de hoje...

07 Julho 2009

...rapidamente sonhou um sonho de primavera...


O Primeiro de Todos os Meus Sonhos

o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar(pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

até o meu segundo sonho começar—
o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera fúria cedo se tornou
silêncio:em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem(bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E então este sonhador chorou:e então
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
—onde tu e eu estamos a florescer

e. e. cummings


(poemas como este, há uns anos fizeram-me companhia à saida do RiR, ainda com a cabeça nos concertos do Roger Waters e do Santana, ali à espera que o Metro abrisse...)

06 Julho 2009

...quanto sonho a nascer e já desfeito...





Hora que Passa

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida, escura,
Minh'alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d'água triste... a vida corre...

Florbela Espanca

...como nasce a água ou o amor, quando a juventude não é uma lágrima...


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade
in "Até Amanhã"

...when the moon turns red with blood...




...o Boss numa nova faceta... e receber um presente destes antes de uma viagem longa é fantástico...

...mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação...




A menina sem palavra

A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmixível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.
Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
- “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
- “Mar”...
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elabolou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.
A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
- “Venha, minha filha!”
Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
- “Vamos f lha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
- “Pai!”
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:
- “Agora, é que nunca”.
A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temedroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?
- “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”...
Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e 0 conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
- “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”
E os dois, iluaminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.



Mia Couto
in "Contos do nascer da Terra"


...you had a hold on me, right from the start...




...grandes presentes este fim-de-semana... um ticket para um concerto superdivertido e um cd do Boss...

05 Julho 2009

...when you love someone but it goes to waste, could it be worse??...








Lyrics | Coldplay Lyrics | Fix You Lyrics

...sabe bem ter-te tão perto...




...mais uma banda de que eu gostava que chegou ao fim... arre bolas, ultimamente tudo aquilo de que eu gosto chega ao fim?????????????? :((

04 Julho 2009

...sinto-me frágil...




...hoje estamos assim...

(...e mais valia terem deixado o som original- Palma ao vivo não é assim... e depois não querem que eu reclame... bahhh)

...never found our way, regardless of what they say...




Ohh, can't anybody see
We've got a war to fight
Never found our way
Regardless of what they say

How can it feel, this wrong
From this moment
How can it feel, this wrong

Storm.. in the morning light
I feel
No more can I say
Frozen to myself

I got nobody on my side
And surely that ain't right
And surely that ain't right

Ohh, can't anybody see
We've got a war to fight
Never found our way
Regardless of what they say

How can it feel, this wrong
From this moment
How can it feel, this wrong



How can it feel, this wrong
From this moment
How can it feel, this wrong

Ohh, can't anybody see
We've got a war to fight
Never found our way
Regardless of what they say

How can it feel, this wrong
From this moment
How can it feel, this wrong