06 Janeiro 2010

...e que, nesse futuro, sozinhos ou acompanhados por rostos que agora desconhecemos, sejamos capazes de um sorriso que mais ninguém entenda...






Como imagino a primeira vez que fizermos sexo


Considero-me um optimista. Desde que tenho opiniões e que consigo distanciar-me o suficiente para me observar a tê-las, que me considero um optimista. Como seria de esperar, encontro alguma paz nesta assunção, mas não consigo ter a certeza se considerar-me optimista não será, em si, um sinal de optimismo. Talvez. Seja como for, não é bom ter certezas em relação a tudo. São as incertezas que esbatem os contornos, que diluem as cores. Precisamos das incertezas para não sermos geométricos e insuportáveis. Suponho que considerar a hipótese de algum dia fazermos sexo pela primeira vez é também um sinal desse mesmo optimismo. Não há garantias. Aquilo que imaginamos é responsabilidade nossa. É apenas certo que te materializaste a distância suficiente para que te abraçasse. Depois, pareceu-me que o teu corpo cabia perfeitamente nos meus braços. A perfeição, a perfeição, sei que ambos somos capazes de rir-nos dessa palavra.



Há tanto que já aconteceu antes. Há palavras repetidas que, no momento de serem ditas, parece que chegam de outras idades. Há frases que chegam de momentos específicos, que regressam inteiros no momento em que digo ou oiço essas mesmas frases. A intrusão desses momentos faz com que me sinta estranho em mim, como se os meus olhos, de repente, fossem atravessados por um olhar que me pertenceu há anos mas que, agora, é de outra pessoa. Chega desta conversa. Se ainda não percebeste, explico-te melhor quando estivermos juntos. Agora, acredito que deves ter mais curiosidade de saber como imagino a primeira vez que fizermos sexo.



Vai ser na minha casa. Vamos estar a beijar-nos no sofá. Ainda não sei bem se gosto que me mordas a língua. Da última vez, vieram-me lágrimas aos olhos. Acho que não notaste, escondi-as, mas, acredita, estavam lá. Aquilo que me parece é que, neste momento, gosto de tudo o que me queiras dar, mesmo que sejam dentadas na língua que me põem lágrimas nos olhos, que ultrapassam aquela fronteira em que a dor é cómoda e chegam à dor-dor. Esta é a situação actual, mas, espero que saibas, não será sempre assim. Por favor, não deixes que esta informação te iniba. Podes morder-me a língua. Podes morder-me onde quiseres.



As minhas mãos. Tu ainda não conheces bem as minhas mãos. Sei que tens uma ideia sobre elas, mas ainda não as conheces muito bem. Eu próprio me surpreendo com elas frequentemente. As minhas mãos vão procurar as formas do teu corpo. Gosto de começar por perceber a dimensão das coisas. Vou segurar-te nos ombros, nos braços, na barriga de lado, nas ancas e nas pernas. A escolha destes lugares do teu corpo não tem nada a ver com a procura de um crescendo, com uma gradação que, no seu auge, chegue a lugares mais intímos e/ou pornográficos. Aliás, não chegarei a estes lugares pela escolha, mas sim pelo instinto. Eu conheço os meus instintos, os bons e os maus, os que me fortalecem e os que me enfraquecem. Gosto de todos, não os contrario, todos fazem parte de mim, sou todos eles. Mais, nos teus ombros, braços, barriga, ancas e pernas estarei já inteiro. Nesse momento, não terei ainda a certeza de que iremos, de facto, fazer sexo.Não estarei preocupado. Não consigo imaginar-me preocupado enquanto estiver a beijar-te, a abraçar-te e enquanto as minhas mãos estiverem no teu corpo. Estar preocupado significaria estar longe de ti. Contigo, não consigo estar longe de ti. Contigo, apenas sou capaz de estar contigo.



Posso desabotoar-te as calças? O momento em que tiver nos dedos o botão das tuas calças será determinante. Se sentir que me facilitas o gesto que farei com o polegar e o indicador, se não sentir a tua mão a afastar a minha, será dado um grande passo entre nós. É claro que eu não pensarei isto com estas palavras. Estes pensamentos apenas são possíveis porque estou aqui, longe, e porque a minha mente se aventura por caminhos desaconselháveis. Baixar-te as calças com as duas mãos.



Certezas que tenho:

- A tua pele é suave.

- As minhas pernas cabem no interior das tuas.

- Aguento o teu peso com facilidade.

Vou querer abrir os olhos para, em instantes, ver o teu rosto. Vou querer guardar essas imagens paradas, fotografias do teu rosto. Após um vinco na respiração, entraremos num mundo que se construirá à nossa volta, um mundo que se propagará a partir de nós. Deixaremos de saber os nossos próprios nomes.



O meu corpo pesado, lançado pelos meus braços para o teu lado. Quanto tempo passou? Onde estamos? Enquanto recuperarmos a respiração, estaremos cheios de perguntas.



Além disso, há este texto. Se chegarmos a fazer sexo, há a possibilidade deste texto interferir, de nos sentirmos na obrigação de contrariar os seus detalhes para o garantirmos como ficcional e não nos acharmos previsíveis. Então, não me irás morder a língua, não ficaremos no sofá e não me deixarás desabotoar-te as calças, irás tu própria desabotoá-las. Mais tarde, daqui a semanas ou meses, falaremos deste texto e será como uma piada. Iremos rir-nos da própria dedicatória: para a L. Iremos, pelo menos, sorrir. Tudo estará bem se, semanas ou meses após termos feito sexo pela primeira vez, estivermos juntos a rir ou a sorrir.



Se nunca chegarmos a fazer sexo, este texto continuará a existir. Se tiver de ser assim, espero que estas palavras não tenham qualquer interferência com essa possibilidade, que ficará no lugar invisível onde se acumulam todas as possibilidades que nunca se concretizaram. Seria bastante rebuscado que este texto impedisse esse encontro, mas já me surpreendi com coisas bastante menos surpreendentes. Em todas elas, a vida e o tempo continuaram. Se assim for, se assim não for, espero que a memória deste texto seja a memória destes dias e que, dessa maneira, seja algo de bom, que nos faça bem, e que, nesse futuro, sozinhos ou acompanhados por rostos que agora desconhecemos, sejamos capazes de um sorriso que mais ninguém entenda e que não tentaremos explicar a ninguém.



José Luís Peixoto


in "Em busca da Felicidade: Dez histórias"



...um belo fim de tarde, a comer uma 1/2 torrada enorme e deliciosa e a ler um dos vários contos do livro... e antes de sair de casa tinha encontrado um bilhete de uma Festa das Latas de tempos idos... é bom ver que há coisas que nos fazem sentir em paz...

...I look good without shirt...



Lyrics | Tom Waits - Goin’ Out West lyrics



...efectivamente bem melhor do que há uns meses atrás... com pneus de triciclo apenas...

...noite feliz...





...depois de uma noite bem calma, apesar das "novidades" escaldantes do outro lado da linha telefónica, a ouvir os duetos da Ella e do Louis, nada como acabar a ouvir muito boa música (mais um dos meus "roubos" no FB)...

...se eu te troquei não foi por maldade...

...mas a solidão deixa o coração neste leva e traz...





Veja bem, meu bem
Sinto te informar que arranjei alguém
pra me confortar.
Este alguém está quando você sai
E eu só posso crer, pois sem ter você
nestes braços tais.

Veja bem, amor.
Onde está você?
Somos no papel, mas não no viver.
Viajar sem mim, me deixar assim.
Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.

Enquanto isso, navegando vou sem paz.
Sem ter um porto, quase morto, sem um cais.

E eu nunca vou te esquecer amor,
Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz.

Veja bem além destes fatos vis.
Saiba, traições são bem mais sutis.
Se eu te troquei não foi por maldade.
Amor, veja bem, arranjei alguém
chamado "Saudade'.



...outro concerto que não conto perder... um dos melhores concertos que vi no ano passado... o bilhetito já cá canta...

05 Janeiro 2010

...dança das ondas....





...afinal, boa parte dos meus amigos do FB tem bom gosto e volta e meia descubro coisas fantásticas...

...and what would it mean to say, that, "I loved you in my fashion"?...




Under the dog star sail
Over the reefs of moonshine
Under the skies of fall
North, north west, the Stones of Faroe

Under the Arctic fire
Over the seas of silence
Hauling on frozen ropes
For all my days remaining
But would north be true?

All colours bleed to red
Asleep on the ocean's bed
Drifting on empty seas
For all my days remaining

But would north be true?
Why should I?
Why should I cry for you?
Dark angels follow me
Over a godless sea
Mountains of endless falling,
For all my days remaining,

What would be true?

Sometimes I see your face,
The stars seem to lose their place
Why must I think of you?
Why must I?
Why should I?
Why should I cry for you?
Why would you want me to?
And what would it mean to say,
That, "I loved you in my fashion"?

What would be true?
Why should I?
Why should I cry for you?




...uma coisa que a Vida me ensinou foi que as pessoas que nos magoam intencionalmente não merece as nossas lágrimas e que as pessoas que as podem merecer difcilmente farão algo que nos possa magoar... e se o fizerem, serão os primeiros a pedir desculpa...

...all the promises we made, all the meaningless and empty words...






Lyrics | Cranberries Lyrics | Promises Lyrics


...mais um concerto de Março e o bilhete já cá está... o concerto de 2001 lembra-me coisas bem engraçadas...

04 Janeiro 2010

...a resposta está no vento que sopra...



How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, 'n' how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
Yes, 'n' how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, 'n' how many times can a man turn his head,
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, 'n' how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.





...ainda havia um bilhetinho para mim :)))...

...usamos todos a suprema glória do Amor...


CONSTELAÇÕES

Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
história, constelações
de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos

Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seicentista
que ofuscando-se: o sol

Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste

Ana Luísa Amaral


...e um dos livros da Ana Luísa Amaral também veio comigo, depois de me ter feito companhia a saborear uma bela tosta mista (deliciosa!!!!!!!!) e mais um chá de frutos vermelhos... um fim de tarde bem agradável...

...and my heart beats so that I can hardly speak,,,







Lyrics | Louis Armstrong lyrics - When Did You Leave Heaven? lyrics


...um certo disco de duetos hoje ficou coladinho à minha mão na minha loja preferida e lá foi até à caixa...

...tu ne viendrás pas ce soir...



...este tema faz-me lembrar os 3 meses que passei em Kaunas...

...Lhasa...





...tenho pena de nunca a ter visto em palco... mas se o rumor for apenas isso, é um dos nomes que não quero perder nos próximos tempos...

03 Janeiro 2010

...las que evitamos encontrarnos porque nos traen los recuerdos más amargos...


Vamos A Hacer Limpieza General

Vamos a hacer limpieza general
y vamos a tirar todas las cosas
que no nos sirven para nada, esas
cosas que ya no utilizamos, esas
otras que no hacen más que coger polvo,
las que evitamos encontrarnos porque
nos traen los recuerdos más amargos,
las que nos hacen daño, ocupan sitio
o no quisimos nunca tener cerca.

Vamos a hacer limpieza general
o, mejor todavía, una mudanza
que nos permita abandonar las cosas
sin tocarlas siquiera, sin mancharnos,
dejándolas donde han estado siempre;
vamos a irnos nosotros, vida mía,
para empezar a acumular de nuevo.

O vamos a prenderle fuego a todo
y a quedarnos en paz, con esa imagen
de las brasas del mundo ante los ojos
y con el corazón deshabitado.


Amalia Bautista



(...já comecei a meio de 2009... e em 2010 vou continuar a deitar fora tudo o que não interessa para a minha vida e a deixar mais tempo e espaço para as coisas realmente importantes...)

...de manhã todas as flores sabiam de cor onde estava o seu Amor...

...bricabraque e pechisbeque...





...este tema, recorda-me alguns votos de Ano Novo: limpar toda a fancaria e coisas impróprias que existem na minha vida e rodear-me apenas de coisas boas e de pessoas boas...

02 Janeiro 2010

...viras-me o corpo ao avesso e depois eu recomeço as variações de humor...





Desespero à tua espera
Não é doce
Antes fosse doce d'alma
E manter aquela calma nem que fosse
Por um dia
Antes quero uma vadia!
Gato vadio sabe onde vai,
Sabe onde cai,
Não dá um ai nem um miado,
Toma cuidado.

Tu dormes na minha cama
Tratas-me por meu amor
Viras-me o corpo ao avesso
E depois eu recomeço
As variações de humor

Tu nunca estás!
Nem à frente nem atrás,
Nem por cima nem de lado;
És um corpo imaginado
Filho da maçã de adão
Uma lua passageira
Passageira passageira
Passageira a noite inteira
No outro lado da estação

Tu dormes na minha cama
Tratas-me por meu amor
Viras-me o corpo ao avesso
E depois eu recomeço
As variações de humor

Eu fico mau!
Não sou de pau e fico frio,
Também tenho o meu feitio
Alguns nós a desatar...
Já me cansei de chamar,
De fazer fita,
Mandar tiros para o ar,
Mas o que me faz desatinar
É tu seres tão bonita
Muito bonita, muito bonita...

Tu dormes na minha cama
Tratas-me por meu amor
Viras-me o corpo ao avesso
E depois eu recomeço
As variações de humor

...mas o que os olhos dizem não cabe num poema...



Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.

Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.

Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.


Nuno Júdice

...é, meu amigo, só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo o amor...


mais músicas no letras.com.br

01 Janeiro 2010

...I don't wanna be your friend... forget about your house of cards...





Lyrics | Radiohead Lyrics | House of Cards Lyrics


(...a amizade nestas coisas lixa tudo...)

...porque se emburrecermos, aí sim, não restará mais nada...


Morrer em vida é fatal

Nunca esqueci de uma senhora que, ao responder por quanto tempo pretendia trabalhar, respondeu com toda a convicção: “Até os 100 anos”. O repórter, provocador, insistiu: “E depois?”. “Ué, depois vou aproveitar a vida”.É de se comemorar que as pessoas aparentem ter menos idade do que realmente têm e que mantenham a vitalidade e o bom humor intactos – os dois grandes elixires da juventude. No entanto, cedo ou tarde (cada vez mais tarde, aleluia), envelheceremos todos. Não escondo que isso me amedronta um pouco. Ainda não cheguei perto da terceira idade, mas chegarei, e às vezes me angustio por antecipação com a dor inevitável de um dia ter que contrapor meu eu de dentro com meu eu de fora.Rugas, tudo bem. Velhice não é isso, conheço gente enrugada que está saindo da faculdade. A velhice tem armadilhas bem mais elaboradas do que vincos em torno dos olhos. Ela pressupõe uma desaceleração gradativa: descer escadas de forma mais cautelosa, ser traída pela memória com mais regularidade, ter o corpo mais flácido, menos frescor nos gestos, os órgãos internos não respondendo com tanta presteza, o fôlego faltando por causa de uma ladeira à toa, ainda que isso nem sempre se cumpra: há muitos homens e mulheres que além de um ótimo aspecto, mantêm uma saúde de pugilista. A comparação com os pugilistas não é de todo absurda: é de briga mesmo que estamos falando. A briga contra o olhar do outro.Muitos se queixam da pior das invisibilidades: “Não me olham mais com desejo”. Ouvi uma mulher belíssima dizer isso num programa de tevê, e eu pensei: não pode ser por causa da embalagem, que é tão charmosa. Deve estar lhe faltando ousadia, agilidade de pensamento, a mesma gana de viver que tinha aos 30 ou 40. Ela deve estar se boicotando de alguma forma, porque só cuidar da embalagem não adianta, o produto interno é que precisa seguir na validade.Quem viu o filme Fatal deve lembrar do professor sessentão, vivido por Ben Kingsley, que se apaixona por uma linda e jovem aluna (Penélope Cruz) e passa a ter com ela um envolvimento que lhe serve como tubo de oxigênio e ao mesmo tempo o faz confrontar-se com a própria finitude. No livro que deu origem ao filme (O Animal Agonizante, de Philip Roth), há uma frase que resume essa comovente ansiedade de vida: “Nada se aquieta, por mais que a gente envelheça”. Essa é a ardileza da passagem do tempo: ela não te sossega por dentro da mesma forma que te desgasta por fora. O corpo decai com mais ligeireza que o espírito, que, ao contrário, costuma rejuvenescer quando a maturidade se estabelece.Como compensar as perdas inevitáveis que a idade traz? Usando a cabeça: em vez de lutarmos para não envelhecer, devemos lutar para não emburrecer. Seguir trabalhando, viajando, lendo, se relacionando, se interessando e se renovando. Porque se emburrecermos, aí sim, não restará mais nada.


(MARTHA MEDEIROS
in Zero Hora - 03 de maio de 2009 N° 15958)

...traz contigo a maré da manhã com que todos os náufragos sonharam...


Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam.


Nuno Júdice





(...nesta altura festiva veio a saudade de alguns velhos portos de abrigo... felizmente, apesar de terem desaparecido, só mudaram os "locais" dos meus portos, porque eles reapareceram de onde menos esperava. Sou uma pessoa com muita sorte... :-D !!! Quanto aos portos antigos... se se afastaram é porque se calhar não eram verdadeiros portos de abrigo, apenas ajudaram um pouco este barco quando o mar não estava muito calmo - mas, quando vieram as turbulências e os problemas sérios que quase me fizeram afundar, decidiram afastar-se... contudo, a memória é traiçoeira, porque nas situações complicadas lembramo-nos mais facilmente das coisas boas que nos fizeram sorrir que das coisas tristes que nos fizeram chorar, daí esta nostalgia... no entanto, não deixa de ser um bom sinal, ver que a mágoa e a raiva desapareceram e que só ficaram as lembranças dos tempos bons: sinal que consegui perdoar tudo o que fez sofrer e estou em "paz" comigo mesma... porque afinal, mudar o Mundo começa por nos mudarmos a nós próprios... )

...se escrevo é porque és apenas uma imagem da memória...


Ainda existem as ruas onde por acaso
nos encontrávamos? Tantos dias correram
num ano, viam-me em dias de mais
desejo apressar os passos, olhar para
o relógio, pôr falhando os discos
nas capas. Parecia ter sido só
uma despedida de um dia para o outro. Agora
se escrevo é porque és apenas uma imagem
da memória, pouco faltará para que
guarde de ti um risco, um embaraço.
E sempre chegarei a tactear o rosto,
fingir que me lembro de alguns sinais,
das poucas palavras necessárias para que
eu aceitasse, duas vezes o meu corpo
esteve com o teu, outras mais do que
podes pensar. Na volta de uma esquina
não reparo, tropeço, encontro o último
sorriso começa a nascer.


Helder Moura Pereira

(...e o tempo até se encarrega de embelezar algums das memórias :p)

...regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa...


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


Manuel António Pina
(... ainda não se paga imposto por sonhar e este senhor tem um sorriso que sempre me cativou....)


"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."



Carlos Drummond de Andrade

..:: * 2010 * ::..



31 Dezembro 2009

...2009...




...é inevitável por estas alturas fazer o balanço do ano que está a terminar. Humildemente, creio que 2009 foi um Bom Ano. Em termos pessoais, alguns laços foram reforçados e consegui estar mais tempo com as pessoas de quem gosto. O facto ter decidido que todas as semanas retiraria um bocado de tempo ao trabalho para estar mais com os amigos e com a família, foi uma excelente decisão, que contribuiu para que a minha vida pessoal melhorasse muito nos últimos meses.
Em termos profissionais, houve coisas que correram bem - a nova UC que "me" atribuiram, apesar dos contratempos de ter sido preparada em tempo record, creio que teve um "saldo" muito positivo; o facto de pela primeira vez em 4 anos se terem lembrado de que eu existia e que podia ser Júri de trabalhos finais de licenciatura; e claro, o facto de ter podido progredir - não a progressão a que talvez tivesse direito, mas ainda assim, ao final do mês vai ajudar a que as contas não estejam negativas - e houve algumas coisas que correram mal - a UC de MGA podia ter sido melhor planificada, dado que dedicir sobre horario compacto ou horário ao longo do semestre foi difícil e teve repercussões muito negativas no funcionamento das aulas; os caloiros que me chegaram sem nenhum interesse nas aulas; e obviamente alguns problemas menores e comuns do meu dia-a-dia profissional. Mas creio que o saldo foi positivo. Pelo menos, apesar de me sentir cansada sinto-me bem comigo e com o que fiz. Nem sempre as coisas correram bem, mas eu fiz o melhor que podia fazer naquelas condições. E sei o que correu mal, para evitar que futuramente cometa os mesmos erros.

Em termos de saúde, no ínicio do ano as coisas não estiveram bem devido ao volume de trabalho, mas nos últimos meses consegui alterar o meu ritmo de trabalho e creio que está tudo bem melhor.

Em termos materiais, consegui os meus objectivos - o carro e umas FÉRIAS fantásticas - e obviamente, ser aumentada.

Em termos familiares, a situação não é fácil, mas ou eu me estou a acostumar (o que é possível), ou já vi isto mais negro... é ir vivendo um dia de cada vez, e sempre da melhor forma possível.

Em termos pessoais, consegui fazer as "pazes" comigo e com algumas situações do passado. Foi complicado desmontar tudo para conseguir perceber um conjunto de coisas que me eram difíceis de aceitar. Consegui esse passo. E desde o final da Primavera, a Vida ganhou um sentido diferente: já acordo com um sorriso, como há muito não acontecia. E de facto, se isso aconteceu, devo-o a alguns amigos que me aturaram e me conseguiram fazer uma lavagem ao neurónio pensante.

E a Vida continua... um dia de cada vez, tentando viver da melhor forma cada dia.

Afinal de contas, quase todos os sonhos que tinha se foram concretizando em 2009: não posso pedir muito mais.

***FESTAS FELIZES***





***::...e que em 2010 possamos concretizar os nossos Sonhos...::***

30 Dezembro 2009

...now you can hardly stand it...




Aimee Mann - Wise Up lyrics

..::The Wake of the Angel::..

...(quase) tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz....


A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz
.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Cecília Meireles



...como acontece com toda a gente, a minha vida não é perfeita - mas tenho tanta coisa boa, que não tenho o direito de me queixar e sim de apreciar o que tenho e o que me rodeia: posso não ter tudo o que gostaria, mas gosto do que tenho, desde as coisas mais irrisórias, como um bibelot ou um cd, às coisas mais importantes, como as pessoas que me preenchem o coração... e ser feliz não depende do que se tem, mas da forma como se aprecia o que se tem. Conheço tanta gente com saúde, uma família fantástica, um emprego bom, um bom salário que têm uma vida miserável... e nos últimos tempos aprendi a dar valor às pequenas coisas que me rodeiam... como um arco-íris num dia de chuva ou um tema favorito a passar na rádio... ou às grandes coisas, como um sorriso de um amigo ou um abraço fechado... o Universo conspira a nosso favor, como diz frequentemente a minha Fau... só há que estar atento, saber usar... saber dar tempo...